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Vaidade (The Sin Saga)

"O espelho é para todos o grande dialogante"

Desejava atrair a admiração e olhar promíscuo daqueles com quem ela se cruzava, causando-lhe inveja, um puro ódio luxuriante, despertando nos corpos circundantes a vontade de lhe ser igual, de lhe ter o corpo e a beleza, de lhe sentir o prazer e o desejo. Regozijava, narcisisticamente, por se sentir admirada, desejada, por alimentar a volúpia ardente nos olhos de quem a cobiçava. Orgulhava-se de cativar e fazer desesperar os corpos que ansiavam o que ela tinha para oferecer, assegurando altiva, o rol de pretendentes ao seu valioso tempo, a um lugar a seu lado, a um instante do seu prazer, a um pedaço da sua cama, a um deslindar do seu íntimo, a um atravessar da sua capa, a um estilhaçar do espelho onde se admirava. Via-se reflectida, ensaiava poses, vislumbrava cenários na sua imaginação. O espelho mostrava-lhe o que corrigir, o seu melhor perfil, o seu melhor ângulo, a sua melhor expressão. Posicionava-se, vezes e vezes sem conta, ajeitava-se, sorria-se. Gostava do que via e sentia-se orgulhosa de saber que o seu reflexo igualava as pistas que a sua mente, o seu espírito lhe davam. Falava com o espelho, uma superfície inerte que apenas ganhava vida com a sua sombra, com os seus movimentos, que não lhe falava de volta mas que lhe dava a resposta a todas suas perguntas. Era nele que via quem gostava de ser, era nele que imaginava o seu corpo entregue a outro corpo, que os via em comunhão, que ensaiava as próximas actuações. E assim, vaidosa e orgulhosa, soberba e caprichosa, construía memórias que consubstanciavam desejos, que explanavam vontades e capturavam sensações.
"Quando se não tem já vaidade no corpo, está-se no fim"

Quotes by Vergílio Ferreira

Luxúria (The Sin Saga)

Sentia-se arrebatada pelo instinto, sempre e em toda a parte. Vivia consumida pelo desejo que lhe florescia na pele como que implorando para ser saciada. Deixava-se dominar pelas paixões, deixava-se embrenhar nos apelos do corpo que não lhe davam o descanso prometido após uma longa viagem. Sentia-se atraída pelos prazeres carnais, em todas as suas formas, em todos os seus mais animalescos vectores, incitando a libido ao comportamento desmedido do insaciável. Procurava, incontrolável, satisfazer a lascívia que sentia surgir no íntimo do seu ser, ambicionando provar tudo, experimentar tudo, não deixar um sabor por degustar, um corpo por profanar, uma pele por lamber, um líquido por saborear, um grito por calar. Sucumbia à libertinagem, ao sexo despudorado, ao roçar das carnes, ao ímpeto do desejo e da concupiscência. Vadiava, fornicava, fodia, consumia, gozava, numa masturbação desregrada, egoísta  e insaciável do seu corpo e dos que lhe eram oferecidos para fruir. Excessiva, decadente, passional, erótica, sensual, consumava o desejo e a satisfação numa pérfida mas absolutamente inegável luxúria.

Ira (The Sin Saga)

Abriu pesarosamente os olhos. Mortiços e cansados, a claridade que lhe ofuscava agora a retina, mostrava-lhe que era dia. Não se lembrava onde havia deixado a noite mas estava certa de que a última vez que a sua memória havia guardado um instante no tempo, a sombra da noite ainda se fazia sentir. Sentia o corpo cansado, esgotado até, os músculos doíam a cada tentativa de se mexer, de sair do sítio, de erguer o pescoço e averiguar as circunstâncias de tempo e lugar. Fez um esforço redobrado, repeliu a dor e acordou a mente para se recordar dos factos que a levaram ao cansaço que sentia. Ao perscrutar os instantes que precederam aquele acordar, não logrou deixar de esboçar um sorriso. Sentira na pele a ira do desejo, no corpo a raiva do prazer, o descontrolo do equilíbrio do ser, a fúria da luxúria em todo o seu esplendor. Havia-o provocado, havia-o feito chegar perto do desespero, havia-o feito desejá-la sem pudor, irritando-o, mostrando-se inacessível, vedando-lhe reiteradamente a entrada, impedindo-o sistematicamente de lhe tocar quando sabia que ela era sua, sempre o havia sido. Obstinado, lia-se-lhe no olhar o desejo de a esmagar entre os braços, de a prender num laço apertado, de lhe destruir o corpo de tanto a querer, de tanto a foder, de tanto a abusar. Ela, jogava o jogo, manipulando, mexendo as peças a seu bel-prazer, desfilando descaradamente os seus intentos, enciumando-o, negando-o, repudiando-o, fazendo-o subir na escala do desespero por não a ter mesmo sabendo que no fim, seria sua, sempre o havia sido. Quando finalmente sucumbiu, sabia que as consequências seriam severas e o seu corpo seria fustigado pelo desejo hiperbolizado, pela ira incontrolável de um prazer adiado, pela irracional agressão da possessão. A explosão dos sentimentos recalcados reflectiram-se na entrega, na forma puramente carnal com que se apoderou do corpo dela, nas investidas caiadas de um rugir de demarcação de território, nas palavras furiosas gritadas aos seus olhos ao invés de sussurradas ao ouvido, no agitar e impetuoso manobrar do frágil ser que sorria maleficamente a cada descambar de luxúria que lhe via no olhar. Aguentou estoicamente, até lhe saciar a vingança, até o corpo se esgotar visceralmente, até ao Xeque-mate final.

Gula (The Sin Saga)

Engolia-o sempre que podia numa vontade desmesurada, num querer desenfreado, numa gula exacerbada pelo desejo de o sentir estremecer face a cada movimento que a sua ávida boca desenhava. Insaciável, tomava-o nas mãos e manobrava-o intensamente, lambendo-o, chupando-o, agitando-o. Sabia que o prazer não se acabava mas inconscientemente era movida pelo desejo de querer sempre mais, de o esgotar, de o fazer implorar que abrandasse, dando-lhe tempo de respirar e ganhar fôlego para aguentar uma nova investida. Deliciava-se no simples gesto de o fazer brilhar da saliva que as papilas gustativas soltavam face ao sublime sabor que ele lhe proporcionava. Degustava o prazer que sabia lhe retribuir na ponta da língua, no fundo da garganta que orgulhosa o abarcava todo e o largava suavemente massajando e acariciando cada veia, cada textura, cada curva, cada tornear do membro que acicatava a sua vontade. Sabia-se pecadora, sabia-se capitalmente viciada, sabia-se inexoravelmente culpada. Confessava sem demonstrar o mais ténue resquício de arrependimento. Assumia sem almejar à absolvição. Preferia sempre, sem pensar duas vezes, o prazer terreno que o eterno marasmo.

Da preguiça (The Sin Saga)


Permaneciam na cama até que o tempo os viesse chamar, mal educado, inconveniente, inoportuno, interrompia-lhes a vida. Detestavam-no. Permaneciam na cama, dormentes, torpes, anestesiados pelo calor dos corpos que não logravam separar, hipnotizados pelas labaredas que lhes assolavam o olhar. Permaneciam na cama, indiferentes ao que o mundo lhes reservava lá fora, interessados apenas no timbre da voz sussurrada ao ouvido, no aroma da pele que se-lhe encostava, no toque das mãos exacerbadas de desejo, nas carícias dos dedos quentes e bafejados pela luxúria da descoberta, no beijo incendiário que lhes queimava os lábios e o corpo como uma tocha que arde paulatinamente, no membro exaltado pela proximidade do prazer, na lentidão dos movimentos apenas esforçados em sentir e fazer sentir o prazer de uma entrega. Permaneciam na cama até que fossem obrigados a abandonar o leito que coleccionava as suas indulgências, que abarcava as suas fantasias, que fazia as delícias da paixão, que contrapunha a inércia da preguiça à languidez de fazer amor ainda entorpecidos pelo acordar do corpo para as primeiras horas da manhã. Permaneciam na cama, soberanamente preenchidos um do outro, predestinados a almejar morrer ali, fundidos na volúpia de orgasmos demorados e sonhando ignorar o chamamento do tempo e das obrigações.
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