Roçava o descaramento, a petulância, a vaidade. A forma como a olhava e a cobiçava, incomodavam-na. Não era seu hábito encontrar-se sozinha a uma mesa e raramente sentia os olhares pousados em si, apreciando-lhe os movimentos, investigando-lhe a proveniência, a sua história. Passava despercebida por entre o universo, ao qual pertencia como um grão de areia num imenso areal, uma entre muitas, banal. De longe, sentia-lhe a lupa perscrutar-lhe o corpo e circunscrever-lhe o livre arbítrio, a naturalidade e espontaneidade. Ele impunha-se-lhe sem se impor, falava-lhe sem lhe falar, cortejava-a sem a cortejar, mostrava-lhe o que queria sem sair do lugar. Fitava-a, sem desviar o olhar quando confrontado diretamente pelo seu, não mostrava pressa de se afastar, permanecia paciente e silencioso, apenas observando. Não seria ela a intervir, era o que mais faltava, pensou por mais de uma vez. Mas, a verdade, a verdade que lhe ditava o corpo, era que o nervosismo, o tremor, a dúvida, o mistério, a cobiça e o queimar daquele olhar, a intrigavam, a faziam palpitar de desejo, de curiosidade. Por instantes, imaginou-se a deixar-se tocar, a baixar a guarda e deixá-lo entrar, deixá-lo furar a capa da sua normalidade e atingir-lhe em pleno o coração da luxúria. Suspirou e voltou a concentrar-se, devolvendo o pensamento à realidade e esquecendo a loucura que no seu íntimo implorava enfrentar. Procurou-o com o olhar, agora vaidosa e confiante, segura de que lhe despertava o desejo mas já não o viu. Havia-se evaporado antes de ela lhe poder devolver o olhar e lhe dar assentimento, logo agora que estava determinada em jogar. A caminho da saída, um corredor medeava o espaço entre a porta e a sala onde se encontrava. À direita, uma reentrância piscava a neon, uma alternativa à saída. Caminhava lentamente, sufragando a certeza de que não havia inventado aquele cenário e abandonando as vontades que lhe percorriam o corpo, olhou para o escuro corredor. Viu-o. Encostado à parede, calmo e sereno. Resolveu ir ao seu encontro, deixando a inércia para trás das costas, seguindo o instinto, a vontade que lhe fazia bambolear as pernas e tremer as mãos. Não disseram uma palavra. Lançaram-se um ao outro, sucumbiram à urgência. Descobriram uma porta que se abriu sem dificuldade, os obstáculos deixaram de lhes importar. Pegou-a ao colo, arregaçou-lhe a saia, despiu-lhe a blusa. Beijou-a, introduzindo-lhe a língua, fundo e contorcendo-a em labaredas, percorreu-lhe o corpo com as mãos, apalpando-lhe as curvas, comprovando com o tacto aquilo que o olhar já havia indagado. Passou-lhe a mão no meio das pernas, estava derretida, escorrendo tesão e ansiando por que entrasse nela. Gemia de forma audível, indiferente a quem pudesse ouvir, indiferente a juízos de valor. Desembaraçou-se das calças, deixou-as cair ao chão trôpega e apressadamente. Erecto, firme e ávido, empurrou-lho para dentro de uma estocada só, deslizando imparável até lhe atingir o cume, até a sentir contorcer-se de prazer. Subjugou-a ao seu ritmo, entrando e saindo sem pudor, sem parar, beijando-lhe os seios, trincando os mamilos rijos e proeminentes, roçando-se nela, preenchendo-lhe o corpo, invadindo-lhe as entranhas, fodendo-a num momento animal e carnal, numa urgência de vontade, num sublime acto de prazer puro, bruto e compulsivo. Massajou-lhe o clitóris, saliente e inchado, intumescido de prazer, transmitindo-lhe em cada terminação nervosa, espasmos delirantes, tremores, pequenos indícios do culminar. Estocada após estocada, lia-lhe nos olhos a tesão, a luxúria, a incapacidade de controlo, de chegar ao fim e se saciar. Deixou-a vir-se tanto quanto aguentou, deixou-a explodir tanto quanto conseguiu, até que não mais se controlou e lhe depositou no ventre a prova do seu prazer. Gritaram em uníssono, regozijaram. Apressaram-se a vestir e trocaram apenas um "Muito prazer."
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Raconte-Moi Une Histoire
Caminhava pela estrada de ladrilhos amarelos que lhe ditavam o destino. O percurso já se encontrava traçado, bastava seguir as pistas deixadas como migalhas para não se desviar da rota que havia encetado e para a qual dificilmente haveria retorno. Girou nos calcanhares, vermelho sangue, reluzentes e preciosos, sacudiu-os três vezes como quem bate na madeira. Rogava, inocentemente, a sorte de não se perder mas também sabia que a sorte nada diz da pessoa, não lhe diz respeito, não lhe comove as decisões nem lhe dita as respostas. Mas, pelo sim, pelo não, preferia contar com a sorte do que lançar-se à sorte. O caminho levou-a para onde desejava achar-se, um mundo encantado, de personagens inéditas, de brilhozinhos e purpurinas, de carnais desejos e impuras vontades. Já não era criança, já não se aventurava a sonhar, tentava convencer-se sempre que acordava. Mas a verdade é que sonhava e amiúde sucumbia ao vício de projetar infindáveis histórias, de inventar inadiáveis paixões. Viu-se, contando os passos dados e tingidos a amarelo, encurtando a distância entre o corpo que ansiava e o ponto de chegada que sabia conter a satisfação do desejo que a incentivava a continuar. Imaginava o prazer da consumação, imaginava-se entregue a um feitiço lançado para a desafiar, para a excitar, para lhe marcar na pele a luxúria, para lhe dar a provar prazeres indescritíveis, impensáveis, inconfessáveis. Imaginava-se a colher todos os frutos da árvore do pecado, a conhecer todas as formas de saciar e de satisfazer, de amar e lamber, de chupar e penetrar, de gemer e beijar, de furar e comer, de trincar e gritar, de prazer, sempre de prazer. Marcou o compasso firme e decidido, havia de lá chegar mais depressa que o previsto, queria saber o que se encontrava no fim da linha. Depois de uma curva, vislumbrou ao longe, a lua pendurada no céu, vaidosa e imponente como que dizendo "à noite mando eu!" e sorriu por se sentir mais perto, quase lá. Ameaçava chover e as nuvens de tudo faziam para tapar a orgulhosa lua, prostrada exibindo a pretensa beleza que alvitrava ao mundo. Chegou. Chegou e sucumbiu, ajoelhou-se numa vénia ao mundo que lhe era agora dado a conhecer, embrenhou-se nele, respirando-o e deixando que se entranhasse no seu peito, guardando os bafos de prazer que se sucediam sem parar. Inspirou, olhou a lua que lhe sorria agora de volta, pestanejou, acordou.
Raconte-Moi Une Histoire
A chuva ácida do aglomerado urbano extremamente populado que se ouvia lá fora, pouco lhes importava. A não ser porque fora debaixo dela que se haviam cruzado e decidido juntos abrigar-se dela no quarto barato e deveras imundo do primeiro hotel que encontraram. A decoração, perfeitamente hedionda, deixava ver resquícios de histórias ali passadas. Manchas suspeitas no sofá de canto, pequenos rasgos no revestimento, o papel de parede remendado vezes e vezes sem conta por diferentes desenhos descontinuados, as tonalidades bege amareladas dos cortinados da janela que dava para uma triste parede de betão, o cheiro bafiento do ar saturado e a sombra avermelhada do candeeiro asiático apelando às raízes e orgulhos nacionais. Fecharam a porta atrás de si, encharcados em água que lhes conferia um peso extra nos corpos frios, arrepiados e puramente fartos das monções. Ela, algo tímida, refugiou-se no canto mais escuro do compartimento como que fugindo do seu olhar perscrutador, e retirou peça a peça cada pedaço de tecido que lhe ornamentava o corpo. A simplicidade das suas vestes contrastavam em tudo com o seu cavalheiresco fato, de colete e gravata, que lhe assentava na perfeição e denotava sem margem para dúvidas que havia sido impecavelmente talhado para si. A frieza do seu olhar emprestava ao seu semblante um gélido distanciamento. No entanto, conseguia derreter-lhe a vontade com um simples esgar, com um simples vislumbrar na sua direcção. Havia qualquer coisa no fundo dos seus olhos que a congelavam no tempo, que a fazia esperar pelo seu toque, que a fazia despojar-se da clarividência e entregar-se sem porquês, que a fazia ficar inteiramente à sua mercê. Chamou-a para si e guiou-a suavemente como se comandasse os fios de uma marioneta, ordenando-lhe que se deitasse no sofá. Posicionou-a como lhe aprouve e respirou perto da sua pele como que inspirando o seu cheiro para a sentir sua. Não sabia o que a fazia desprender-se assim, não sabia que efeito exercia sobre ela mas sabia que tinha o poder de fazer dela tudo o que os seus caprichosos trejeitos quisessem. Talvez fosse a forma como idolatrava o seu corpo, a forma como o percorria curioso, testando todas as suas reacções, inspeccionando a melhor forma de lhe coarctar a razão para se entregar a si, de corpo e alma. Talvez fosse o mistério e o silêncio, o silêncio da sua boca que ainda não havia proferido uma só palavra e apenas se havia atrevido a beijar-lhe os lábios semiabertos e ávidos de curiosidade. Talvez fosse o domínio que as suas mãos exerciam sobre o seu corpo. Contorcia-se com um beliscar aqui, estremecia com um deslizar ali, suspirava quando parava, gemia quando recomeçava. Os dedos, manifestamente ardilosos, sabiam de cor as suas zonas erógenas e valendo-se disso, fê-la desesperar, colapsar de vontade de o sentir entregue à paixão do seu corpo, introduzindo-se nela e penetrando-a o mais fundo que conseguisse, o mais longe que alguém pudesse ter-se aventurado nela. Mas ele parecia não estar disposto a abandonar o seu ensejo, continuava hipnotizado, ofertando-lhe a sua admiração, regozijando ao vê-la perdida com o toque dos dedos no seu clitóris vibrante, gozando os sucos premonitórios que dela brotavam, inspirando o aroma cálido e inebriante que dela emanava e se espraiava no seu olfacto turvando-lhe a visão, empurrando-lhe o toque e conspurcando-lhe o paladar. Levantou-se de um impulso só, deixando-a prostrada e ingenuamente crente de que chegara a hora de o sentir em si. Enganou-se. Vestiu o casaco, ajeitou-se ao espelho e quebrando o silêncio, disse na voz mais rouca e cavernosa que alguma vez ouvira: "Deixa o desejo consumir-te e comer-te as entranhas. Saberás quando me encontrar."
Raconte-Moi Une Histoire
Nada o fazia prever. Ainda se lembrava de estar a escolher a roupa para vestir, sexy mas com classe, duvidou se saltos altos seriam a melhor opção para uma noite que se avizinhava longa, preto a cor de sempre, perfume suave mas envolvente. Contudo, agora, tudo lhe parecia búzio, nublado, como se tivesse acontecido há dias e não há míseras horas. Saiu de casa pronta a divertir-se com as amigas de sempre, apanhou um táxi na praça junto a casa. Foi cobiçada pelos homens que se cruzavam com ela na rua, sentia-se bem. Ainda ouviu uma voz ao longe inquirindo "para onde iria ela passear aquela sensualidade toda". Riu baixinho e caminhou segura. Ao fechar a porta do táxi conferiu o telemóvel. Encontrava-se inundado de sms das amigas que já a esperavam e reclamavam a sua presença imediata. O peso do dia-a-dia evaporou-se mal entrou no restaurante cuja gerência lhes reservou o local para uma festa privada e onde elas eram as únicas clientes. As conversas fluíam intensamente, os copos e garrafas giravam de mão em mão, de boca em boca. O cenário afigurava-se deslumbrante. Um grupo de mulheres imbuídas de sensualidade, arranjadas, bonitas e de corpos esbeltos e curvas de prender o mais incauto dos olhares. A música ecoava ao longe, abafada pelas vozes animadas, pelos risos estridentes de quem se divertia alheio ao mundo exterior. Ela não se destacava de forma especial, não sobressaía do todo. O aglomerado compunha um arranjo de feminilidade, de suave erotismo, de beleza e glamour. Entregaram-se à dança como um acto mecânico, como que directamente decorrente do estado de espírito e do efeito da bebida no auto-controlo que o recato normalmente impunha. Soltaram-se de tal forma que não havia corpo que não ondulasse, que não ardesse de calor, que não emanasse desejo e volúpia. A mulher tem esta capacidade. A de sentir e de querer sem vergonha. Quando se aperceberam, já o calor tinha ordenado que as roupas se subtraíssem. Vislumbrava-se agora mais pele que tecido, mais corpo que imaginação. Rodeavam-se, roçavam-se. Por mais incrível que pudesse parecer, o facto de não haver um único homem no meio delas, ainda lhes dava mais gozo, ainda lhes dava mais prazer. Elevados os espíritos, foi fácil a porta do desejo abrir-se e dar azo a mais cumplicidade, a gestos mais impensados. Ela foi surpreendida por um corpo que se-lhe colou nas costas, passando a mão pelas suas curvas, deslizando pelas costas e terminando nas suas ancas perfeitamente desenhadas. Girou nos seus peep toes e encarou-a de frente espantada. Mordeu o lábio envergonhada. A mão direita acariciou-lhe o rosto que instintivamente inclinou resfolegando de ternura. Piscou ligeiramente os olhos e sentiu uns lábios quentes encostarem-se aos seus. Não recuou. Ofereceu os seus também. Entreabriu-os levemente para tão só testar a libido. A língua dela aproveitou a brecha e invadiu-a toda, entrelaçando-se na dela, molhando-a e fazendo-a estremecer por inteiro. Sentiam os olhares cravados nas suas costas mas naquele momento, já não importava. Quando encostaram o corpo uma à outra, decidiram espreitar a plateia e enfrentar o juízo alheio. Sorriram quando viram grupos transformados em pares, em trios, em verdadeiras orgias de erotismo e descoberta. O beijo dado tinha sido o grito de guerra, o sinal para se abrirem as hostilidades, a chave que abriu o cadeado do que ninguém queria assumir como vontade. Sorriram e decidiram logo ali, aproveitar o que o momento lhes oferecia. Nada o fazia prever. A loucura que lhes perpassava o espírito contaminou o corpo e sem mais, entregaram-se à descoberta de corpos novos mas familiares. A visão era assustadoramente explosiva. Pelo chão jaziam roupas, lantejoulas, sapatos deixados ao acaso e corpos deitados, absolutamente embrenhados em tocar, em apalpar, em beijar, em sentir. O suor escorregava-lhes pela pele, a respiração entrecortada umas vezes, acelerada outras. Um gemido mais audível, outro mais contido, outro completamente despudorado. Nada o fazia prever mas no final da noite, a sensação era a de que há momentos cuja espontaneidade, cuja entrega tem impreterivelmente que culminar assim. Em prazeres descobertos onde menos se esperava.
Raconte-Moi Une Histoire
Conheceram-se no meio de livros. Páginas poeirentas e marcadas pelo desgaste, pelo virar de dedos imundos da saliva cuidadosamente lambida e pelas lágrimas vertidas em instantes de complacência. Por entre o espaço vazio deixado por um almanaque emprestado há dias, ela viu o seu vulto esguio e disforme. Espreitava calmamente a secção de pintura, gostava de Vermeer (havia qualquer coisa naquele brinco de pérola e naquele olhar ligeiramente inclinado que o fazia imaginar a história por detrás daquele olhar) e Dalí (admirava a sua desconstrução da realidade, o modo como desfigurava as formas, líquidas, lânguidas). Há muito tempo que não lia um livro, agora bastava-se em olhar imagens, em ver as histórias já reproduzidas e acabadas mas surpreendentemente não conseguia abandonar as catacumbas da livraria. Ler um livro, para si, era uma experiência que deveria ser partilhada, um fazer amor com as palavras, trocando ideias, comentando, ajuizando, lendo trechos em voz alta. E há muito tempo que não fazia amor assim.
Agradou-lhe a forma sofrida como ele perscrutava as páginas coloridas. Via-se que não estava feliz. Aliás, todo o seu semblante gritava sofrer, solidão. Já para não falar no desalinho do seu cabelo, nos sapatos por engraxar, na camisa por passar a ferro e o rasgo involuntário que sobressaía no joelho dos seus jeans. Aproximou-se dele. Era descarada. Sempre fora. Em criança chamavam-lhe Busy Bee porque passava a vida a rondar os outros, indagando, perguntando o porquê das coisas, querendo saber a explicação para tudo e espalhando o pólen da curiosidade no espírito dos que a rodeavam. Achou que ele era um caso digno de investigação. Aqueles olhos escondiam mais que uma desilusão. Plantou-se a seu lado, olhando descaradamente as páginas que ele virava como quem vai no comboio em direcção ao trabalho e espreita o jornal do vizinho do lado para ler as novas do dia. Mas, ao invés de o fazer silenciosamente, encetou diálogo com o seu sorumbático interlocutor. "Se gostas de Vermeer, vais adorar saber que eu detenho o original deste quadro guardado lá em casa. Mas shhhhh, é segredo!" Piscou o olho, em sinal de brincadeira, esperando resposta. Dali a estarem a partilhar um café, foram breves instantes. Ela falava sem cessar numa verborreia que lhe era intrínseca, ele ouvia-a atentamente, esboçando tímidos sorrisos sempre que a sua boca desenhava um trejeito que lhe era próprio e ele guardava na retina da sua memória. Repetiram o café os restantes dias da semana. Falavam de livros, das artes, de sabores, de aromas, da vida. E o sorriso débil em breve se transformou em gargalhadas sonoras, em deliciosas tertúlias de saber. Um dia, ela roubou-lhe um beijo. Por entre folhas do jornal que lia pacientemente, selaram-se destinos num colar de lábios tão ameninado como os primeiros beijos da primária.
Conheceram-se no meio de livros. E era no meio deles que faziam amor. Amor com as palavras, amor com os corpos. Imbuíam-se das palavras e liam um para o outro. Contando histórias, vivendo ilusões, imaginando cenários. Interrompiam-se amiúde, desconcentravam-se. Uniam os corpos em abraços de paixão e retomavam mais tarde, depois de cansados os corpos, de fracturado o desejo. Dizia quem os via que haviam sido feitos um para o outro e que o seu amor resistiria a todas as intempéries. Eles sorriam e diziam que o seu amor era tão resistente quanto as folhas de papiro, essas andam cá há milhares de anos.
Raconte-Moi Une Histoire (L'autre)
"Se te dissesse que te quero, seguirias-me?". Guardo ainda o guardanapo escrito a esferográfica que ela me deu naquela manhã de sábado. Ela, a que me tem preenchido os sonhos, a que não tornei a ver. Ela, a leitora, que encontrei no café e que me prendeu com o olhar de encantamento de quem tinha passado a noite sem dormir. Eram evidentes, na sua face perfeita, as marcas ainda vivas de uma noite que se tinha seguido directamente ao dia anterior. Fiquei a pensar se teria tido um encontro fugaz. O seu amante tê-la-ia abandonado após um momento de paixão? Teria sido beijada e repudiado o pretendente? Senti-me excitado enquanto ela olhava para mim, imaginando diversas razões para estar ali à minha frente, perfeita, desejável e não me largando um minuto com os seus olhos negros e profundos. O calor que dela emanava, o desejo contido, fazia-me esquecer que estava semi-molhado da chuva fugidia da manhã. Fiquei a olhar longamente para as pernas bem delineadas e imaginei-as a em torno de mim, aprisionando-me, controlando-me. Decididamente, tinha que desviar a minha atenção para outro lado, antes que a minha excitação se tornasse tão reveladora que mais clientes pudessem notar. Fiquei a olhar para o café que tinha à minha frente desviando por instantes os meus olhos. Foi aí que ela se levantou e me deixou o guardanapo na mesa: "Se te dissesse que te quero, seguirias-me?".
Confesso, fiquei surpreso. Desejava-a desde que entrei e a notei. Mas não o esperava. Ela arrumou as coisas e eu decidi segui-la. A chuva tinha desaparecido momentaneamente. Olhei para o vestido dela e via apenas uma pequena linha da string nas ancas. A minha excitação, que não tinha diminuído, se possível, aumentou. Sentia o volume nas calças. O seu passo era apressado e destinado a conduzir-me a algum local que conhecia bem. Por um momento, passou-me pela cabeça a ideia de que poderia ter estado ali anteriormente. Imaginei-a com outro homem e apressei mais o passo. Naquele momento, tinha que ser minha. Estávamos num beco. Ela colocou-me um dedo nos lábios como para me impedir de falar. Ou para dar uma sugestão. Eu coloquei o dedo dela na minha boca e chupei-o longamente. Senti-a torcer-se. Os altos do bicos nos peitos denunciavam a sua excitação da mesma forma que o volume nas minhas calças. Ela virou-se de costas para mim, indicando claramente qual seria o próximo passo. Coloquei a mão por baixo da saia e percorri-lhe as coxas. A minha mão seguiu até à sua parte mais quente e húmida. Ela sussurrou-me ou imaginei que me sussurrou: “Quero-te. Quero-te agora dentro de mim.” Coloquei-lhe as mãos nas ancas, puxei-a ligeiramente para mim. Encostei o meu sexo à entrada da sua abertura quente e inchada de desejo. Comecei por entrar suavemente, ouvi-a suspirar, e trouxe-a para mais junto de de mim. A minha mão nos seus cabelos foi o sinal para juntar as suas ancas à minha pélvis. Num ápice, estava totalmente dentro dela. Ouvia apenas a sua respiração acelerada, ao ritmo da nossa dança. Coloquei-lhe a mão na boca, para abafar os sons modulados que estava a começar a emitir. Afinal, estávamos no beco e a qualquer altura podia aparecer alguém. Só esse pensamento fez-me começar a sentir que a partir daí, não podia voltar atrás. Alea jacta est. Os dados estavam lançados. Sussurrei-lhe ao ouvido, baixinho: “Quero sentir-te explodir de prazer em torno de mim.” O “Sim” dela não deixou margem de dúvida de que, também ela, tinha ultrapassado o ponto sem regresso. E enquanto as ondas me percorriam a partir da parte bem dentro dela, senti-a arquear-se, abafar o seu próprio som de prazer mordendo-me a mão e depois, num momento interminável, permanecermos juntos.
Confesso, fiquei surpreso. Desejava-a desde que entrei e a notei. Mas não o esperava. Ela arrumou as coisas e eu decidi segui-la. A chuva tinha desaparecido momentaneamente. Olhei para o vestido dela e via apenas uma pequena linha da string nas ancas. A minha excitação, que não tinha diminuído, se possível, aumentou. Sentia o volume nas calças. O seu passo era apressado e destinado a conduzir-me a algum local que conhecia bem. Por um momento, passou-me pela cabeça a ideia de que poderia ter estado ali anteriormente. Imaginei-a com outro homem e apressei mais o passo. Naquele momento, tinha que ser minha. Estávamos num beco. Ela colocou-me um dedo nos lábios como para me impedir de falar. Ou para dar uma sugestão. Eu coloquei o dedo dela na minha boca e chupei-o longamente. Senti-a torcer-se. Os altos do bicos nos peitos denunciavam a sua excitação da mesma forma que o volume nas minhas calças. Ela virou-se de costas para mim, indicando claramente qual seria o próximo passo. Coloquei a mão por baixo da saia e percorri-lhe as coxas. A minha mão seguiu até à sua parte mais quente e húmida. Ela sussurrou-me ou imaginei que me sussurrou: “Quero-te. Quero-te agora dentro de mim.” Coloquei-lhe as mãos nas ancas, puxei-a ligeiramente para mim. Encostei o meu sexo à entrada da sua abertura quente e inchada de desejo. Comecei por entrar suavemente, ouvi-a suspirar, e trouxe-a para mais junto de de mim. A minha mão nos seus cabelos foi o sinal para juntar as suas ancas à minha pélvis. Num ápice, estava totalmente dentro dela. Ouvia apenas a sua respiração acelerada, ao ritmo da nossa dança. Coloquei-lhe a mão na boca, para abafar os sons modulados que estava a começar a emitir. Afinal, estávamos no beco e a qualquer altura podia aparecer alguém. Só esse pensamento fez-me começar a sentir que a partir daí, não podia voltar atrás. Alea jacta est. Os dados estavam lançados. Sussurrei-lhe ao ouvido, baixinho: “Quero sentir-te explodir de prazer em torno de mim.” O “Sim” dela não deixou margem de dúvida de que, também ela, tinha ultrapassado o ponto sem regresso. E enquanto as ondas me percorriam a partir da parte bem dentro dela, senti-a arquear-se, abafar o seu próprio som de prazer mordendo-me a mão e depois, num momento interminável, permanecermos juntos.
De olhos fechados, senti os lábios dela nos meus. Ainda a ouvi sussurrar “O paraíso viveu em ti, agora.”. Se o paraíso era como aquele momento, não quereria sair dele. Ainda com as palavras vivas, abri os olhos e ela tinha desaparecido. Dela tinha apenas a mensagem. Imaginei-a esgueirando-se do beco, ainda com os vestígios do nosso prazer, como eu também os tinha. Nessa noite não dormi. Nas seguintes, mal preguei olho. Não, não tinha ficado apaixonado. Obcecado, talvez fosse a expressão exacta. Voltei várias vezes ao local, mas inutilmente. Não a encontrei, não tinha forma de a voltar a ver. Até ontem. Ao ler um blog, o meu coração deu um salto. A frase lá estava, a mesma: "Se te dissesse que te quero, seguirias-me?". Reli a história, reli a frase. Percebi que ela também precisava exorcizar aqueles momentos. Que, na sua memória, aquele encontro continuava a ocorrer e que ela tinha tido que o escrever. Só nos conseguimos distanciar das histórias quando as escrevemos. Por isso, ela a tinha escrito. Por isso a escrevo.
PS: Esta noite, pela primeira vez, depois de ter escrito a história ontem, consegui dormir. Sonhei com ela sim, mas sem angústias, sem acordar a pensar nela, a desejar tê-la ao meu lado. Tive a certeza de que, onde quer que estivesse, também ela tinha ultrapassado aquele momento fugaz e único. Para ambos tinha finalmente chegado o momento da paz, a merecida paz que se segue ao supremo êxtase."
J.
(Uma singela mas deliciosa e delicada homenagem, uma glosa ao texto de ontem. Obrigada J., fizeste-me sorrir.)
Raconte-Moi une Histoire
Passava os olhos atentamente por cada palavra que compunha uma frase do livro que havia trazido para a rua acompanhando-a enquanto tomava um singelo café. Gostava de ler rodeada de gente como que enclausurando-se do barulho, do frenesim de pessoas que agitadamente se moviam em seu redor e conversavam sem cessar. Pelo canto do olho, quando sentiu a porta abrir-se para mais um cliente se vir abrigar da chuva que fustigava o dia escuro, viu uma figura que lhe despertou a atenção. Vestia roupa casual, roupa de fim-de-semana, típica de quem passa os dias aprisionado por um fato e gravata e desespera por se libertar do jugo do colarinho. Barba por fazer, telefone na mão enquanto observava e saboreava um café, pensativo. Por impulso, ao sentir-se observado, ripostou a investida inquisidora. Deparou-se com um olhar abusador de quem olha sem vergonha. Sorriu sem deixar de a fitar. Permaneceram, sem pressa, cada um embrenhado no seu escasso personal space, prolongando a sua estadia mais tempo que o habitual só para verem até onde aquele olhar e sorriso poderiam ir. Ela não havia pregado olho. Envergava ainda as roupas da noite anterior, em tons de preto como era hábito, um vestido justo colado ao corpo salientando-lhe as curvas que a natureza lhe havia feito questão de proporcionar, sapatos de tacão e maquilhagem já esbatida embora plenamente funcional. Decidiu colocar fim ao impasse. Pegou num guardanapo, retirou uma caneta da bolsa e escreveu apenas: "Se te dissesse que te quero, seguirias-me?". Arrumou as suas coisas sentindo nas suas costas um olhar desiludido pela sua partida inesperada mas não sem antes o surpreender, colocando o bilhete em cima da sua mesa. E sem lhe dar hipótese de responder, encaminhou-se lentamente para a saída.
Não hesitou. Apressou-se a pegar nos seus pertences, deixou uns trocos em cima da mesa e caminhou atrás dela, não queria correr o risco de a perder por entre os transeuntes que nestas alturas pareciam multiplicados por mil e se tornavam autênticos obstáculos, barreiras a ultrapassar. Virou à direita para o que parecia ser um beco. Era cedo na manhã por isso, por ali, sabia não se encontrar vivalma. Sentia-o atrás de si, calado, apressado, num passo cadenciado imitando o seu. Estacou ao chegar ao local que queria e ele parou atrás dela. Girou sobre os seus tacões, encarando-o. Ele mexeu levemente os lábios, inspirando o ar como que determinado a falar. Ela, incisiva, chegou perto dele, colocou-lhe um dedo na boca e disse apenas: "Shhhh...". Pegou-lhe o cabelo pela nuca, com mais força do que ele esperava, encostou-o contra si e beijou-o, um beijo sabor a café. O mote estava dado. Era ali e agora. Ele percebeu-o instantaneamente, pela intensidade do seu beijo, pelo trincar da sua língua e pela sua mão que já se encontrava a trilhar os caminhos da sua excitação. Para ele, aquele gesto constituiu a autorização tácita para ele desfrutar do corpo dela também. Percorreu-lhe as curvas que havia espreitado no café, deteve-se no peito, não muito volumoso mas firme e curvilíneo. Até que, ofegando desenfreadamente, possuída por um qualquer demónio interior, ela se encostou à parede, virando-lhe as costas e abrindo as pernas para lhe mostrar onde o queria. Ele não se fez rogado e num movimento único, colou o seu corpo ao dela e entrou de uma vez só. Gemeu de prazer ao sentir o calor do seu interior e a leveza com que deslizou para dentro dela. Primeiro devagar, bombeando apenas o suficiente para a sentir e se fazer sentir. Depois, aumentou a cadência das suas investidas, agarrou-lhe o cabelo na nuca, inclinado-a para si e penetrou-a até a sentir sucumbir de prazer. O risco de serem vistos, intensificava todas as sensações e ele não demorou, depois de a sentir saciada, a atingir um violento orgasmo. Ela, com o sentimento de dever cumprido, depositou-lhe um breve beijo ao de leve nos lábios e rodopiou dali para fora, deixando-o para trás, sem verdadeiramente saber o que o tinha atingido. O fósforo queimou rápido mas ardeu o suficiente para incendiar tudo à sua passagem. No dia seguinte e nos posteriores a esse, voltou ao local do acontecido na esperança de a voltar a ver, de lhe perguntar porquê, de a conhecer, de ouvir a sua voz. Esforços inglórios pois nunca mais a encontrou, nunca mais a viu. Resignou-se e concluiu que há experiências belas pela sua intensidade, pela sua simplicidade. Repetir, naquele caso, poderia muito bem desfigurar o imaginário criado. Sorriu sentado à mesa do café, mexeu o chá e deixou-se inebriar pelo aroma a frutos vermelhos.
Inspirado pelo rapaz que há dias visitava o "Double Life" no seu telemóvel sentado à mesa do café a meu lado.
Raconte-Moi Une Histoire
O som naquela sala evocava a Belle Époque. As cortinas de cetim vermelho e o cheiro a cigarrilhas, lembravam o ambiente boémio. As missangas e lantejoulas, os smokings e a brilhantina, as plumas, as rendas, tornavam distinto o aroma a noite parisiense nos idos anos 20. Ela envergava um simples vestido de cetim preto, meia liga da mesma cor, sapatos de salto moderadamente alto, luvas pelo cotovelo e uma expressão nostálgica preenchia-lhe o rosto. Pérolas brancas enfeitavam-lhe o pescoço desnudo, pérolas que rodopiava na ponta dos dedos enquanto se deliciava com uma flute de champanhe. Sentada a uma mesa, pouco iluminada, dispunha apenas de uma vela em cima da mesa. Um candelabro cor de prata, de pé alto, que reflectia a chama da vela e lhe enviava os pensamentos para longe dali. Aquela noite, era a sua noite. Tinha conquistado, num casamento onde se embrenhava diariamente e lhe sufocava a alegria, o direito a uma noite sozinha por semana. Longe de um marido que ainda amava mas de cuja relação a paixão tinha escapado há muito e onde a rotina e marasmo se tinha instalado. Longe de uma profissão dolorosa e arriscada. Longe de uma casa onde as tarefas domésticas eram a sua prisão. Uma vez por semana, num ritual só seu, Anne Marie sentava-se ao toucador do seu quarto. Por entre sombras de olhos, brilhos de lábios, pó de arroz, blush, bijuteria e perfumes, deleitava-se durante pelo menos uma hora a arranjar-se. Tempo precioso que a recordavam do tempo em que tinha tempo. Do tempo em que se cuidava e se sentia mulher. Antes de sair de casa, salpicava umas gotas de perfume por trás da orelha e nos pulsos. O cliché era evidente mas Chanel n.º 5 era o eleito para a sua noite e deixava um rasto da fragrância adocicada pairando no ar enquanto beijava na testa o marido, sentado no sofá assistindo a mais um documentário. Já perto da porta, conferia dentro da sua pequena mala se levava tudo o que precisava. Chaves de casa, dinheiro, baton, cigarros, documentos. A mala, uma pequena clutch cravada de brilhantes prateados, não lhe permitia levar mais que o essencial mas a ocasião assim o impunha. Contrastava de forma radical com a sua bolsa de dia-a-dia. Nessa, populada de objectos, abundavam aparentes inutilidades mas que para ela se assemelhava a uma cartola de mágico. Naquela noite, Anne Marie, escolheu a sensualidade em detrimento do pragmatismo. Sentia-se despida mas necessitada de soltar as amarras do mundo metódico em que se via afogada durante a sua vida dita real. Saiu sem peso na consciência e certa de que precisava daquela noite para se sentir mulher. Para se sentir plena consigo mesma. Saiu, batendo a porta ao de leve e forçando um sorriso no rosto aprimorado pela maquilhagem. Sozinha. Dirigiu-se ao Moulin Rouge. Outro cliché ao qual já se tinha acostumado e do qual tinha há muito decidido não abdicar. Ensimesmada, partilhava com a sua consciência os pensamentos que não se permitia ter noutras ocasiões. Por não conseguir desprender-se da sua profissão e da sua casa e do seu casamento. Ali, sozinha, o peso que habitualmente carregava nos ombros, parecia sumir-se por artes de magia mas mantinha a tristeza no olhar. Ouvia descansadamente “Sous le ciel de Paris” de Juliette Gréco quando a viu chegar. Deslumbrante, enérgica, bela, sorridente, confiante, atraente, magnética. Cabeças giravam à sua passagem, ninguém lhe era indiferente. Ria em gargalhadas sonoras com o público que se arrastava nas malhas da sua beleza, atraídos, hipnotizados. Observou-a de longe, invejou-lhe a atenção que lhe disponibilizavam. Por isso se surpreendeu quando a viu levitar na sua direcção e pedir licença para se sentar. Acedeu timidamente, sem perceber o que esperar. Cordial primeiro, amigável depois, a conversa fluiu e os olhares intensificaram-se. Sentia-se tonta, incrédula com a promiscuidade dos seus pensamentos, com receio de ver volúpia onde não existia. A sua voz, agora doce, parecia sibilar sons de desejo em conversas banais, parecia incendiar-lhe a mente com imagens que nunca pensou conseguir pensar. Olhou para o relógio. Queria que o tempo parasse e lhe desse tempo de descobrir mais sobre os limites que sabia agora querer ultrapassar. "Sim, também acho que está na hora", sorriu-lhe e pegou-lhe na mão, intimando-a a segui-la. Quando se apercebeu, estava no lobby a levantar uma chave de um quarto de hotel e a subir num elevador envidraçado. Envergava um sorriso ténue, nervoso e não esperava ser tomada de assalto como foi. O beijo que lhe tomou o fôlego, as mãos que lhe acariciaram as curvas, o trincar libidinoso do lóbulo da orelha, confirmaram o que lhe havia visto no olhar. A penthouse esperava-as. Sombria, deixava entrar pelas vidraças gigantes as luzes da noite, as luzes da cidade, as luzes embaciadas e serpenteantes que criavam sombras ao seu redor. Nervosa, limitava-se a seguir os passos dela, retribuindo na mesma medida as carícias, o toque, o olhar. Deu por si sentada na beira da cama. Ela ajoelhou-se-lhe aos pés e em movimentos lânguidos e sensuais, começou a despir-lhe a roupa. Cada peça, cada adereço, cada réstia do que lhe cobria a pele, abandonava-a agora, lenta e arrepiadamente. Entregou-lhe o corpo para seu usufruto mal sabendo que seria também ela a usufruir do prazer de ser tocada, admirada, de sentir na ponta dos dedos uma pele macia, uns seios firmes, uma boca ávida, uma língua sequiosa. Deitada na cama, jazendo inerte, cansada, fitou o tecto. Viu, como que de passagem, um sorriso desenhar-se nas sombras que vinham da rua. Sorriu de volta. Recolheu os seus pertences e saiu. Calçou os sapatos à porta, chamou o elevador e ajeitou a maquilhagem na face espelhada da porta. Indagou-se se na próxima semana a encontraria de novo. Chegou à conclusão que não importava.
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No âmago da sua demência, achava sempre uma forma de se voltar a encontrar. Era hábito perder-se nas personagens que deambulavam pelos livros que enfeitavam a estante da sala, pejados de pó que teimava em não limpar. Lembrava-lhe as caves do vinho, repletas de garrafas, empoeiradas, envelhecidas, valoradas pelo passar do tempo. Desde pequena acompanhava-a a solidão que lhe consumia as entranhas num rasgar do coração, nas lágrimas secas que não conseguia chorar. A consanguinidade não lhe dizia respeito há mais anos que os que conseguia contar, tinha deixado de importar. O apartamento, impecável e obsessivamente arrumado constituía o seu último reduto, o seu refúgio, o habitat onde depositava as suas manifestações de individualismo. Pelo menos o que ainda lhe restava. No 3.º direito da Rua da Alegria (quanta ironia pensava ao sair de casa), encerrava o seu ser dia após dia, noite após noite. Era bibliotecária. Nos seus livros, nas suas leituras era a personagem principal. Solvia o seu querer nas palavras escritas por outrém. Passeava amiúde pela multidão em busca do que não tinha. Via-se nos sorrisos dos outros, encarnava nos olhares ternos dirigidos àqueles que observava. Imaginava-se em cenários extrínsecos, idolatrava a felicidade que transparecia dos seus pares. De si nada surgia. De seu nada tinha. À noite apertavam-se-lhe as veias num nó gélido e indelével num sono só. Cobria o corpo com o manto aconchegante da dormência. A mesma que a fazia flutuar pela vida numa existência incapacitante. À noite sonhava os sonhos líricos das páginas que curava de dia. Preferia os romances e espreitava de quando em vez, a medo, envergonhada, a secção erótica. Um corredor esguio e inerte, longe de olhares indesejáveis, secreto como os livros de magia e esoterismo. Era ali que vivia (como que recordando) as páginas de um amor tórrido, de um desejo incandescente, de uma paixão avassaladora. Embrenhava-se de tal forma nas linhas que compunham aqueles textos que perdia amiúde a noção do tempo e do lugar. O instinto e a vontade de sentir na pele o prazer que só havia conhecido em palavras, levavam-na vezes sem conta a procurar-se. Entregava-se ao prazer de se descobrir, de se conhecer intimamente. Imaginava sem pudor o seu amante. Tenaz, vigoroso, insaciável, virtuoso, capaz de ser gentil e bruto em simultâneo, atencioso. Uma mão segurava o livro, a outra desenvencilhava-se da roupa e encontrava o seu centro nevrálgico de prazer. Tocava-se desesperadamente, silenciando os gemidos que calava da plateia de estudiosos que ali se encontravam, sucumbia perante o orgasmo ténue mas perfeito por não conhecer maior perfeição. Votava-se ao sucesso de, por alguns instantes que fossem, sentir vida brotar do seu corpo, sentir-se mulher.
Da janela do seu quarto, observou a noite enquanto fumava um cigarro prosaico e descansado. Estava só e dava tudo por uma noite mal dormida. Almejava a entrega verdadeira de dois quereres numa vontade só. Debruçou-se mais de perto sobre o parapeito. Viu o corropio das luzes incessantes que se sucediam na rua. Decidiu ver mais de perto. Hipnotizada, entregou-se às vertigens. Viu-o. Vestia de negro resplandecente. Decidiu querê-lo.
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Combinaram todos os detalhes. Ela vestiria em tons de preto: sapato de tacão alto, meia liga, saia curta e apenas um blazer ocultando um corpete de renda bastante decotado. Ele costumava dizer que adorava cumprimentá-la com um beijo e sentir-lhe logo a pele por baixo da saia e ela não o quis desapontar. Contudo, a memória apagou-se-lhe no momento em que entrou naquele quarto. Da mala retirou uma venda e dois lenços de cetim preto. O plano era ele ser o alvo de toda a sua atenção. Despertar-lhe os sentidos ocultando-lhe a visão. Mas, o feitiço virou-se contra o feiticeiro e ele surpreendeu-a. "Não, hoje quero-te dar todo o prazer a ti." Apoderou-se dos lenços e, após ter-lhe tirado a roupa, deitou-a na cama, prendendo-lhe os pulsos à cama, num movimento suave e cuidado, certificando-se que estava seguro o suficiente para não a magoar. De um lado passou para o outro, beijando-a quando se aproximou da sua boca. "Pronta para provares do teu veneno?" Ela assentiu, esboçando um sorriso tímido. Vendou-a. Fez-se noite nos seus olhos arregalados e instintivamente receou o que aí vinha. Conseguia antecipar um sofrimento, um sofrimento delicioso mas doloroso ao mesmo tempo.
Com os seus lábios carnudos, percorreu-lhe o corpo de lés a lés. Começou no pescoço, passando pelos seios onde não conseguiu evitar dar uma leve trinca e molhar de saliva o mamilo. Continuou, em direcção à barriga, arrepiando-a por o saber tão perto do seu centro nevrálgico de prazer. Mas, quando pensava que era aí que ele se ia demorar, depressa se apercebeu que não. Chegou-se perto da boca, beijou-a ao de leve trincando o lábio inferior e afastou-se deixando-a pendurada, expectante. Segundos mais tarde, sentiu-o aproximar-se e imaginou que outro beijo se seguisse. Entreabriu os lábios, esperando a sua língua mas não foi o que encontrou. Sem medo, lambeu o que lhe era dado a provar e desde logo descobriu ser o seu membro pulsante que se encostava e afastava dos seus lábios e da sua língua deixando-a desesperada e ávida de o sentir todo. Não o fez e afastou-se novamente. Aproximou-se-lhe do ouvido sussurando um "estás a gostar?", trincando o lóbulo da orelha e chupando-o. Depois, pegou-lhe na mão e encaminhou-a para o que veio descobrir ser o seu membro. Fê-la tocá-lo por alguns instantes enquanto a sentia também, pressionando-lhe suavemente o clitóris. Voltou a parar. Debruçou-se sobre ela, lambeu-lhe os mamilos alternadamente, apertou-os com força, fazendo com que se contorcesse de dor e prazer simultâneo. Por aquela altura, já estava desesperada. Queria senti-lo e atingir um orgasmo rapidamente. Mas tal não lhe foi permitido. Em vez disso, ele dedicou-se a dar-lhe prazer com a língua ao mesmo tempo que a estimulava com um dedo. O facto de não conseguir ver nem saber onde ele ia lamber, com que intensidade ou o momento em que ia introduzir o dedo, deixou-a completamente alterada e cada vez mais louca de tesão. Atingiu um e outro orgasmo de forma concomitante em explosões de prazer absolutamente surreais. Na sua cabeça passavam imagens, as imagens que imaginava serem as que se estavam a passar mas sem nunca saber verdadeiramente até as sentir na pele. Ele, roçou-se nela, mostrando-lhe quão grande já estava, quão pronto se encontrava para ela. Resistiu estoicamente, proporcionando-lhe uma espiral de prazer. Até que, após ter voltado a dar-se a provar na boca, não aguentou mais. Deixou-lhe a venda mas libertando-lhe os pulsos, ordenou-lhe que se colocasse de quatro e entrou nela. Revoltado, possuído, desesperado. Bombeou-a como nunca, agarrando-a pelo cabelo, puxando com força e curvando-lhe a coluna encostando-a a si. Ela pulsava de prazer ao mesmo tempo que colocava um dedo no clitóris e massajava rapidamente. O seu membro húmido do seu líquido entrava e saía sem dificuldade. Gemeu alto e deu-lhe a entender que já podia deixar de se conter. Nesse momento, ele quis mostrar-lhe o que tinha causado nele. Retirou-lhe apressadamente a venda e saboreou o seu prazer. Sorriu, lambendo os cantos da boca, provando da sua essência. Guarda até hoje os momentos de prazer sôfrego que lhe foram proporcionados. Um prolongar do prazer e do gozo, um adiamento absolutamente delicioso.
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A boca tinha um travo amargo e pastoso. Os olhos, semicerrados, vislumbravam a muito custo a luz que provinha do sol que espreitava pelas portadas abertas. Pestanejou demoradamente sentindo o tumificar das pálpebras e um torpor na fronte. Levou as mãos aos olhos, retorcendo-as num gesto puramente infantil, esfregando a preguiça e bocejando solenemente. Reconheceu a paisagem lá fora mas estranhamente, o ângulo daquela fotografia parecia retorcido. Olhou em seu redor. Apercebeu-se num tumulto que não estava no seu refúgio. Aquelas quatro paredes não desenhavam a forma do seu quarto nem aquela cama se assemelhava ao manto que noite após noite lhe cobria o corpo despido. A decoração era indubitavelmente feminina. Os quadros na parede, orquídeas, as velas consumidas até à exaustão, os lençóis de cetim escorregadio, os móveis perfeitamente desalinhados, a cómoda repleta de bugigangas, pechisbeque, fios, brincos, anéis e perfumes. No chão, roupas engelhadas. As suas. As dela. Reconheceu uns sapatos de tacão vertiginosamente alto, pretos e brilhantes. Um vestido dourado com apliques de renda e estilo babydoll largado em fúria pela alcatifa. O cinto de ligas e respectivas meias, maltratadas e inutilizadas, vítimas da pressa e uma ânsia desmedida. A clutch entreaberta, pousada no cadeirão, continha um maço de cigarros estranhamente amassados. Em cima da mesa de centro, dois copos de balão e uma garrafa de vinho tinto largada ao acaso, vazia. Começava a juntar as peças do puzzle. Olhou para o seu lado direito. No leito irreconhecível, a seu lado, jazia um corpo. Esbelto e despido, silencioso, pele clara e harmoniosa. Não era preciso ser vidente para saber o que tinha acontecido. Mas a sua consciência não estava tranquila. Estranhamente não se recordava de nada acerca da noite passada e isso era preocupante. Decidiu fechar os olhos e forçar o avivar da memória. Em vão. De repente, aquele corpo adormecido, torpe e dormente, iniciou um movimento na sua direcção. Espreguiçando-se demoradamente, girou em torno de si própria, abriu de forma cadenciada as pálpebras, revelando uns olhos esverdeado-sonolento e um sorriso triste. Nesse momento, num flashback, passaram-lhe perante os olhos todos os segundos, todos os eventos que levaram àquele desfecho. Como um verdadeiro caleidoscópio, visionou e sentiu cada instante. As luzes extasiantes, os cocktails sequenciais, o fumo aspirante dos cigarros ardidos em surdina, a música ecléctica. Os corpos impessoais, serpenteando em uníssono na pista, aguardando o flirt de um ou outro olhar. O bambolear de personalidades ansiando um isco que as pescasse e retirasse do emaranhado da solidão da multidão para uma partilha num local íntimo e reservado a dois. Ele não ambicionava a nada disso. One night stands estavam fora do seu raio de acção e entravam em rota de colisão com os seus mais vincados princípios. Procurava apenas a diversão que a noite lhe proporciona, a distracção da sua vida tenuemente vulgar, o afastamento da lembrança de um amor perdido algures entre a sua aversão ao compromisso e a incapacidade de demonstrar sentimentos. Há muitos anos atrás. A meio da noite, contudo, alheava-se do mundo e resguardava-se sozinho. Sentado ao balcão, bebendo o seu copo. Envolto nos seus pensamentos, ignorando o que o rodeava, apenas observando. Chegava a imaginar os pares prováveis, simulando mentalmente as conversas ridículas, os engates baratos e imaginando em qual Hotel iriam terminar a noite. Ele não. Não se entregaria à fugacidade de relacionamentos carnais e puramente sexuais. O problema de tão vincada opinião foi não contar com o acaso. De entre aquela multidão que criticava solenemente, vislumbrou-a e soube-a diferente. Soube-a igual a si. Melancólica, sorumbática, escandalosamente bonita, ela encontrava-se na ponta oposta do balcão. Sob uma luz avermelhado-néon, a forma como com a ponta do dedo rodeava o topo do copo e se abstraía do cíclico jogo de flirts, chamou-o para os seus olhos esverdeados e esbugalhados. Quase hipnotizado, levantou-se no seu encalço. Chegou perto do seu ouvido e disse: “Acho que nenhum de nós pertence aqui. Vamos?” Estendeu-lhe o braço, curvando-se ligeiramente. Ela sucumbiu instantaneamente ao seu pedido como se já o esperasse há muito. De manhã cedo, ao ver-lhe a alma no olhar, soube-lhe o futuro. Era dele, era com ele. Desta vez não a deixaria escapar por entre os dedos. Desta vez dar-se-ia inteiro.
Trimmmmmmm….. trimmmm…. Trimmmm… “Estou?”, respondeu enquanto aspirava o fumo cinzento do cigarro que segurava na ponta dos dedos. “Sim sim, terminei agora o primeiro capítulo. Mas acho que precisa de uns retoques… “Num tom de voz alterado, apagou nervosamente o cigarro no cinzeiro pousado na sua mesa de trabalho e respondeu: “Porquê? Porque está estupidamente romântico e não foi isso que me propus escrever”.














