Acordar e sentir o apelo. Abrir os olhos e sentir o vazio, os buracos despojados de preenchimento. Acordar e sentir o molde feito à imagem da perfeição sem o gesso que se havia de adaptar e cobrir todas as texturas, todas as reentrâncias, todas as curvas, todas as proeminências, todos os sulcos, fendas e rachas. Acordar e sentir o chamamento do corpo, o grito por sentir, por ver a mente elevar-se à vontade impreterível de satisfação, de prazer. Abrir os olhos, ainda pesados da sonolência, e provocá-lo para se obrigar a agir e a sair da inércia, para se obrigar a sucumbir ao ardor, ao fogo que lhe devastava a pele, queimando ao toque numa urgência desmedida, num fulgor tão tóxico quanto delicioso, num desvario tão solitário quanto imenso. Acordar e entregar-se ao prevaricar, ao tocar e explorar das entranhas em busca do prazer, rebuscando por entre mel e desejo, molhando os dedos e fazendo-os desaparecer em movimentos ritmados ao gosto e necessidade daquela manhã, daquele corpo apoquentado pela memória denunciando a alma insaciável que lhe habitava a carne e a instigava a deliciar-se e saciar-se sempre, a procurar os adjetivos que lhe haviam de suprir as lacunas, a buscar a matéria-prima que havia de se unir ao seu molde e criar a peça de arte mais sublime, mais perfeita e mais incompreendida do mundo.
Showing posts with label (Ela) tem Caprichos Matinais. Show all posts
Showing posts with label (Ela) tem Caprichos Matinais. Show all posts
Home » Posts filed under (Ela) tem Caprichos Matinais
(Ela) tem caprichos Matinais CII
Antecipando "A Festa"
Tinha o gene da loucura, o cromossoma do prazer sem limites. Embarcara numa viagem que sabia não ter retorno e os dividendos seriam multiplicados por corpos e somados a entregas sem fim. Entrara sem olhar para trás. Costumava ser uma pessoa de convicções e queria continuar incólume. A porta fechou-se nas suas costas, deixando ecoar o som pesado e solene de um cadeado. Não hesitou apesar de os seus olhos terem estremecido ao sentir a reclusão a que voluntariamente se havia entregue. O lugar só por si, alimentava-lhe as mais recônditas fantasias, os mais inconfessáveis pecados. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Um arrepio de receio e desejo em simultâneo. Sorriu um sorriso confiante e deu início à marcha lenta rumo ao desconhecido. As instruções que lhe haviam chegado antes daquela noite eram claras e a predisposição para o prazer, para o sexo desenfreado e para a fruição dos corpos eram requisitos de vontade absolutamente essenciais. Depois de entrar, seguir em frente é imperativo. Suspirou fundo e continuou. A normalidade da vida, tão sobejamente monótona, tão banal, tão indiferente não se coadunava com o que lhe ia na alma. Tantas vezes se sentiu uma estranha no meio de conhecidos, se sentiu só no meio de multidões, se sentiu presa e acorrentada apesar de livre. Apaziguou o seu espírito no dia em que decidiu iniciar a sua busca. Estava destinada a actos maiores, a entregas magníficas.
Quanto mais se aproximava mais o seu coração palpitava. Começou a ouvir os sons que provinham do destino que sabia ser seu. Gemidos intensos, quentes, espaçados, frequentes. As vozes eram diferentes, profundas como que enfeitiçadas. Sentiu a luxúria tomar conta do seu corpo. Os pés descalços que acariciavam o tapete aveludado, as pernas trémulas, os seios rijos, a pele arrepiada, os lábios humedecidos, um palpitar molhado e escorregadio. Ouviu a sua mente estalar de vontade de tornar o desconhecido em conhecido, de se testar, de visionar, perscrutar com os olhos o cenário que ela já se havia encarregue de construir. Mais perto, os sons tornaram-se mais audíveis e o coração, sôfrego, parecia querer chegar lá antes dela. O imaginário alcançava mais que a visão e o desejo crescia-lhe no sexo sempre que o prazer ecoava corredor fora. Um grito soberbo e imoral, um ofegar tão crepitante, o som de corpos entregando-se ao profano numa promiscuidade corruptamente consentida. Pressentia o aglomerar de uma multidão envolta em fogo e paixão. Deu o último passo. Entrou num mundo de carnais desejos e visões de prazer reservadas apenas aos corajosos e capazes de se desprender das amarras do dia a dia. Cobiçou, desejou, flirtou. Viu-se cobiçada, desejada. Tocou, gemeu, gritou, beijou, perdeu-se no emaranhado que compunha um desenho difícil de igualar por qualquer fantasia, explodiu. Vezes e vezes sem conta.
(Ela) tem Caprichos Matinais CI
Quero...camas desfeitas, cigarros ardidos, sorrisos sinceros, orgasmos tamanhos, beijos molhados, almas plenas, espasmos insanos, línguas frenéticas, corpos quentes, peles unidas, prazeres intensos, lamberes sublimes, chupares gulosos, olhares cúmplices, roçares fatais, palavras amenas, sabores misturados, memórias surreais!
(Ela) tem Caprichos Matinais C
Esventrou-lhe o corpo, todo. Passeou-se por ele, demorou-se em cada recanto, explorou cada protuberância, introduziu-se em cada reentrância, imiscui-se-lhe em cada poro, lambendo-lhe o suor e o perfume, o desejo e a excitação. Rasgou-lhe os obstáculos à vontade, comungou do que ela tinha para lhe oferecer, uniu-se-lhe num encaixe que mais que perfeito era o que os desígnios ditavam. Perturbou-lhe a calma e a quietude de pensamento, alterou-lhe o palpitar do coração que de compassado passou a acelerado, calou-lhe a razão mostrando-lhe a loucura, sonegou-lhe os sussurros proporcionando-lhe gritos e gemidos. Esventrou-lhe o corpo, todo, apoderando-se do prazer que cada beijo instigava, que cada electrizante toque lhe inspirava, que cada rodopiar dos corpos assomava. Tocou-lhe com mestria e habilidade, fechou-lhe os olhos e abriu-lhe o caminho para o deleite, para o momento em que deslizaria impetuosamente para dentro dela, roçando-se nas suas paredes, entrando e saindo numa maquinal mas errática entrega, numa explosão de desejo e alquimia.
(Ela) tem Caprichos Matinais XCIX
Hoje sinto o corpo carente, só, demasiado só. Sinto-o a exclamar em uivos em surdina, em frases desarticuladas bafejadas ao ouvido, em gritos incessantes a pedir para ser tocado, profanado, abusado, idolatrado. Hoje sinto a força da vontade a esmagar-me contra a parede, o corpo inflamado pelo desejo de ser consumido, apertado, subjugado, comandado, usufruído e multiplicado ao expoente da loucura, ao máximo da exaustão, ao arder pujante do prazer pelo prazer. Hoje sinto o corpo solitário, a rogar palpitante me sejam lambidas as feridas, me sejam preenchidas todas as lacunas, não deixando suco por provar nem centímetro de pele por explorar. Hoje sinto a mente transmutada e imbuída em insanidade, incapaz de se controlar, incapaz de se concentrar em nada que não seja o saciar do querer, o ímpeto do prazer e do orgasmo explosivamente delirante. Hoje não quero piedade, não quero misericórdia. Hoje não quero saber de nada.
(Ela) tem Caprichos Matinais XCVIII
Quero a língua sabedora dos lugares de mim
Quero o sal da boca misturado no doce carmim
Quero o arrepio do prazer a aproximar-se do fim
Quero o toque enlaçado dos lábios que abro assim
Quero o contorcer violento do corpo em festim
Quero a viagem do desejo, daqui até ao confim
Quero o sabor do meu sabor na boca carmesim
Quero arder na paixão de me preencher enfim
Quero o sofrer do tremer em frenesim
Quero a saliva a brotar grosseiramente em mim
Quero o gemer deliciado do lamber de cetim
Quero o orgasmo saborosamente desesperado, quero sim!
(Ela) tem Caprichos Matinais XCVII
Se posso sonhar e imaginar, nos meus sonhos sou o que quero, tenho o que quero, faço o que quero. Posso estar a dormir, posso sonhar acordada, mas nos meus sonhos, invariavelmente, mando eu. Mesmo quando o sucumbir ao sono me eleva a torpeza e pareço comandada pelo subconsciente, sei que sou eu que sonho, detenho o papel principal. E é nos sonhos que se manifesta o mais puro querer, o mais puro desenlaçar dos entraves diários, dos desejos abafados, contidos, chutados para os recantos pérfidos da mente, para os recantos escondidos do coração. Se posso sonhar e imaginar, nos meus sonhos sou o que quero, tenho o que quero, faço o que quero. E ordeno. Ordeno que me chupes a dor que me atravessa qual veneno implacável da serpente do pecado. Ordeno que me lambas a ferida deixada aberta pela tua ausência. Ordeno que me sintas ondulando ao sabor do meu sabor, febril, quente. Ordeno que bebas o suor da minha doença, cada gota que escorre dos meus poros, cada gota salgada e doce que o meu corpo jorra profusamente ao mero toque da tua língua. Ordeno que me acordes da dormência em que me deixas, numa pausa excruciante e me faças soltar os demónios que tenho em mim, me faças pedir clemência. Ordeno-te que me estimules o corpo, penetrando-me de ti, acelerando-me o sexo, torcendo e retorcendo a língua sábia nos meus lábios sequiosos de prazer. Se posso sonhar e imaginar, nos meus sonhos sou o que quero, tenho o que quero, faço o que quero. E ordeno. E hoje ordeno-te que me faças vir, vir muito.
(Ela) tem Caprichos Matinais XCVI
"Deixa-me provar-te". Oiço essas palavras como um eco profundo e rouco, ao longe. Já me encontro pairando, deixando escapar a realidade que encontramos lá fora e perdendo-me nos meandros da cornucópia de sensações que me atingem. Sinto-te deslizar pelo meu corpo, procurando-me na ponta da língua. Brincas, enlouquecendo-me, rodeando, beijando-me as coxas, a barriga, sem nunca lhe tocar. Hesitas, sorris, pousas os lábios em seu redor. Sabes que assim me fazes desesperar, me fazes imaginar o momento em que me vais tocar ali, bem no ponto certo, bem no meu centro, bem no local que me eleva e me faz contorcer. Decides acabar com a minha miséria e encontras-me finalmente. Gemes com o sabor do que te ofereço, de pernas abertas e costas arqueadas. Lambes. Ao ritmo que te apraz, ao ritmo que me apraz. Trincas. Ao de leve. Sinto uma dor suave e deliciosa, seguida de um espasmo que me faz estremecer. Beijas. Incessantemente. Tocas. Abres-me para me veres toda, para me sentires toda, para me envolveres na tua língua que me percorre as entranhas, que me faz praguejar mentalmente e desejar que o prazer não tenha fim. Maldigo-te por me fazeres enlouquecer assim, maldigo-te por me deixares descontrolada, maldigo-te por me fazeres vir assim, sem hipótese de defesa, sem auto-domínio, sem livre arbítrio.
(Ela) tem Caprichos Matinais XCV
Instala-se devagarinho. É uma dormência que entorpece os membros tornando-os moles e desarticulados, é um doce refugiar no afago de um abraço. Os olhos trémulos, pestanejando solenemente como que pedindo licença para se manterem fechados, incomodados pela claridade. Aninham-se os corpos como que rogando sossego mas incandescendo de vontade suspeita. Encaixam, colando-se, deixando pouco espaço entre eles. Devagar, embora a mente queira permanecer inerte, o corpo pede desassossego num paulatino aumentar do querer. A preguiça, até agora impeditiva, leva-os a apenas se mexerem o suficiente para dar ao corpo o sustento que precisam pois não conseguem encostar-se um ao outro e não se terem. Acham física e temporalmente impossível não se amarem sempre que podem. E em gestos lânguidos e lentos, ondulam os corpos apenas o suficiente para sucumbirem no mais sensível e delicioso orgasmo. Ajeitam-se e enjeitam-se, roçam-se e enrolam-se, suspiram e gemem imbuídos de mimo, de doçura, de tímidos sorrisos. Permanecem unidos, mesmo após o suave espasmo, saboreando o abraço reconfortante, a respiração atribulada na nuca, o escorrer dos resquícios da explosão controlada que se ofereceram. Permanecem.
(Ela) tem Caprichos Matinais XCIV
Ela demorava-se em intervalos de tempo inesgotáveis. Saboreava-o absorta, apenas chamada à realidade pelos gemeres e contorções do corpo que manuseava. Sentia, em cada engolir, em cada lamber, em cada chupar, o prazer que lhe proporcionava. Gostava de prolongar os hiatos de tempo em que o tomava nas mãos e o tratava. Deliciava-se com o sabor adocicado e tão característico que dele surgia, sentia-se detentora do poder de o coagir, de o encaminhar rumo ao lugar onde o queria encontrar, de o endurecer apenas com o toque das suas mãos, com o beijo da sua boca, com o entrelaçar da sua língua.
Ele tomava o seu tempo. Excitava-a lentamente, começando com suaves carícias de uma língua que demonstrava uma destreza invulgar. Pequenos toques ritmados que a elevavam alto na escala do prazer. Gostava de sentir progressivamente o grau da sua excitação, regozijava quando os seus gemidos se assemelhavam a gritos mudos, a convulsões de desejo. Lambia, sabiamente, os pontos que a deixavam fora de si, segurava-a com mestria mas libertando-a sempre que o prazer era manifestamente incontrolável. Saboreava o suco que dela jorrava sempre que o sentia por perto devolvendo-lho depois no beijo que trocavam e selava a paixão que os seus corpos unidos consubstanciavam.
"Let's call it the love making of the mouth."
(Ela) tem Caprichos Matinais XCIII
Pergunto-me se saberás o quanto gosto de te sentir assim. Se os movimentos da minha língua te proporcionam o mesmo prazer que sentir o teu prazer me provoca a mim. Se o pegar, se o manobrar, se o ajeitar que os meus dedos, ao fecharem-se sobre ele, descrevendo um círculo, te estimulam tanto como a mim me fazem rodopiar a mente e encharcar o corpo. Se o engolir, fazendo-te desaparecer na minha boca para logo te soltar escorrendo da saliva que te fará escorregar para dentro dela, te multiplicam o desejo. Se quererás que abrande e acelere e abrande e acelere novamente. Pergunto-me se saberás o quanto gosto de te sentir assim. Se o resquício que soltas após investidas cuidadas da língua que em ti se delicia, se reflecte em prazer, em gostar, em saciar. Se saberás que o teu sabor é de tal forma único, de tal forma inebriante que gemo à medida do teu ofegar, do teu gemer. Se saberás que sentir-te crescer nas mãos que te afagam, nos lábios que te beijam, me fazem crescer, me fazem ansiar de vontade, me fazem querer saltar etapas e sentir-te logo. Pergunto-me se saberás o quanto gosto de te sentir assim. Se saberás que só pelo mero imaginar, pelo mero materializar das memórias que me deste nesta mente perversa, me encontro difusa e obtusa, incapaz de me concentrar, entregue ao prazer da vontade, num palpitar trepidante, num enlear de fios que se deixam jorrar de mim, que sinto nervosamente nela, que me aceleram o ritmo cardíaco, que me instigam a procurar-me, que me impelem a intimar-te a vires entregar-me o que mais quero, a vires saciar-me a fome que invariavelmente sinto de ti.
(Ela) tem Caprichos Matinais XCII
Preparemos um motim
Sejamos Sodoma e Gomorra
Entreguemos o corpo ao tumulto
Usufruamos da loucura
Roubemos prazer da confusão
Ofertemos tesão à multidão
Bebamos o sémen da fonte
Beijemos os lábios desconhecidos
Escravizemos o corpo ao grilhão do prazer
Forgemos alianças libertando o querer
Conspiremos pelo desejo e pelo orgasmo
Iniciemos a revolta de vontades!
(Ela) tem Caprichos Matinais XCI
Encetaram o que viria a ser um grande plano. Uma conspiração a duas, um jogo a três. Por acaso ou destino, vieram a conhecer-se, a descobrir-se. Encontraram uma na outra, a sede de prazer, a vontade de viver, o desejo de experimentar. Idealizaram horas a fio, revelaram fantasias, planearam momentos, sorriram desejos, desafiaram luxúrias. Uma conspiração que, só de si, as deixava arrepiadas de antecipação, molhadas de vontade. Acordaram partilhá-lo. Envolveram-no nas malhas da volúpia que as unia, chamaram-no para elas, despertando-lhe a pouco e pouco o fogo que as consumia. Traçaram-lhe o destino. Ao pormenor. E, sem se desviarem da rota delineada, assim o possuíram. Desenfreadamente. Sentiram, à vez e em simultâneo, cada textura dele. Cada veia, cada saliência, cada contorno do membro erecto que ofereceu em sacrifício. Sugaram, lamberam, chuparam. Intercalaram beijos ardentes das línguas que o torneavam e que, amiúde se encontravam enquanto nele se deliciavam. Salivando-o, humedecendo-o, intumescendo-o, preparando-o para depois, só depois as preencher.
(Ela) tem caprichos Matinais XC
Começa com uma ideia. Um simples recordar, uma imagem de um momento, um sentir de uma mão invisível pelo corpo que se acha agora sozinho. Sente-se um formigueiro, um aumentar da sensibilidade, um querer suave e paulatino. Consubstanciamos na ponta dos dedos o desejo que queremos sentir e decidimos testar a vontade. Tocamos ao de leve. Sabe bem. Sabe tão bem. Damos conta que queremos mais. Só mais um pouco. Fechamos os olhos, ajeitamo-nos na cama, rodopiamos sobre o próprio corpo procurando o melhor enlace. Procuramos com impressões digitais vincadas, o ponto de prazer e massajamos os lábios escorregadios. Encontramos o fio da memória que nos há-de conduzir à explosão desejada. Percorremos-lhe os segundos, prolongando os pequenos palpitares de prazer que já nos habituámos a oferecer na solidão dos dias. Sabe bem. Sabe tão bem. Decidimos que queremos mais. Só mais um pouco. Queremos sentir o perfeito saciar, o preencher do corpo. Buscamos ajuda, enterramo-la bem fundo enquanto os dedos preguiçosos da outra mão se decidem a participar. O entra e sai alia-se ao gemido que soltamos a cada investida que controlamos ao nosso ritmo. Sabe bem, sabe tão bem. Enjeitamos a memória, sentimos o cheiro do nosso corpo a emanar o orgasmo que pedimos. Sorrimos, gloriosas. Sabe bem. Sabe tão bem.
(Ela) tem Caprichos Matinais LXXXIX
De algum modo que não conseguiam ainda explicar, e o mais certo era não precisarem, sentiam-se tranquilos e eram unânimes em concordar que haviam nascido para entregas magníficas. Eram entregas desprendidas, apenas permeadas pela procura do prazer absoluto. Deixaram-se de pudores e decidiram entregar os seus corpos em prol de um bem maior. Não havia elos quebrados, alianças desfeitas. Ao invés, desenhavam triângulos puros, círculos viciosos de luxúria plena, emaranhados de corpos emanando volúpia. Nenhum se achava perdido. Na verdade, sempre que decidiam mexer na composição, sempre se achavam preenchidos. O objectivo era, sabiam-no, ir de encontro às vontades de todos, proporcionando-se tudo. Por entre gestos lânguidos e poderosos, línguas e bocas, beijos e mãos, saliva e suor, tocavam-se com a ânsia de dar tudo para receber tudo. Elas sentiam-se no prazer que estavam habituadas a receber, dando-o agora em igual medida. Ele dividia-se numa multiplicação soberana, sentindo o orgasmo de uma para logo saciar a outra. Elas bebiam-se, lambiam os resquícios de prazer que a excitação lhes fazia jorrar do centro do seu ser, apertavam os seios cujos mamilos se encontravam irremediavelmente erectos. Assemelhavam-se em tudo ao que viam nele. Erecto, rijo, grande e insaciável. Eram três corpos, singelos e aparentemente soltos mas na verdade eram unos, presos a uma corrente de desejo e partilha.
(Ela) tem Caprichos Matinais LXXXVII
Estranha-se a ausência. Sente-se na pele o vazio, a nudez do corpo despido, que se acha sozinho, desprovido da plenitude que outrora sentiu. Caminha-se em sobressalto, com o coração aos pulos, num trepidar nervoso, indagando-se mentalmente quando chegará a hora de voltar a provar, quando chegará a hora de voltar a sentir. Entranha-se a sensação de querer, de desejar muito, de implorar se for preciso. Abre-se a porta, acto mecânico, e vê-se chegar a memória do que se deseja, o vulto esguio e de alguma forma fugidio que lhe atormenta o corpo da mesma forma que lhe apoquenta a alma. Guloso, demasiado excitado, lança-se em direcção ao querer sem acautelar o corpóreo materializar do espaço em que se move, já não importa. Quer e quer muito. Quer agora. Precisa. Dobra-se e desdobra-se, indica o caminho. Sente, sem nunca tocar o chão, o rasgar do corpo, o locupletar da mente que um dia provou o que era o prazer e desconhece agora como evitar imitá-lo, repeti-lo, forjá-lo.
(Ela) tem caprichos Matinais LXXXVI
Loucura tão cega, tens-me o mundo ao contrário.
Toca ao de leve, num beijo perscrutador. Testa-lhe a vontade, afiança-lhe o destino, ergue-lhe a vida. Consegue saber pela rigidez que se impõe que é aguardada. A boca sequiosa de o provar, esboça um sorriso, malandro, e solta as palavras que ele gosta de ouvir. Vagarosamente, dispõe-se a tomá-lo nas suas mãos e a explorar as potencialidades que sabe querer. De um sopro só, engole-o em toda a sua extensão, toca-lhe bem fundo na garganta, geme em esforço mas elevada pelo prazer de o ter todo. Recomeça. Lambe, envolvendo-o nos fios da saliva que o tornam escorregadio. Chupa, detendo-se na ponta, desenhando pequenos círculos com a língua que o prova e se inebria pelo sabor que lhe escapa do prazer que ela lhe dá a sentir. Manobra-o à sua feição, alternando a velocidade à velocidade que a turbulência do desejo lhe aflora no peito e se repercute nela, querendo senti-lo a entrar e sair, humedecido pelo prazer que lhe escorre sempre que se deixa perder nele.
(Ela) tem Caprichos Matinais LXXXV
Podemos começar assim. Suave e pacientemente, envolvendo-me no toque da tua língua que incendeia o fogo que me queima na ausência do teu corpo que me inebria todos os sentidos e que em consequência directa se-me dilui o sangue nas veias e dela escorre o sabor que sei te gosto dar a provar. Podemos começar assim. Sabes que a mente se-me perde em ti e os meus lábios, aqueles, se entreabrem para te sentir entrar. Podemos começar assim. Num mergulho lânguido, líquido e libidinoso, num suster da respiração, num expirar sibilante do ar que me foge por entre os dentes até que a entrega culmine no prazer imenso que encontramos um no outro.
(Ela) tem Caprichos Matinais LXXXIV
Hoje não tens querer. Não te dou essa opção. A tua liberdade é norteada pelo meu querer e eu hoje quero assim. Enlaço-te e algemo-te em mim e procuro sentir a tua língua hábil, quente e ardilosa a apoderar-se do prazer que cada lambidela me provoca. Quero que encontres o meu ponto de ebulição e me leves à quase loucura, aquela que me deixa a planar entre o celestial e o terreno, aquela que me transporta para lá do ser sem nunca tirar os pés do chão. Quero explodir na tua boca e oferecer-te o leitmotif que me permeia o corpo sempre que o invades, sempre que o tomas como teu.





















